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Fonte Boa fortalece cadeia do manejo do pirarucu e apoia negócios locais com o Cidade Empreendedora

Programa será executado no ciclo de 2025 e 2026, com 30 ações
Por Thayssa Castro
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Em Fonte Boa, a 680 km de Manaus, o pirarucu (Arapaima gigas) não é apenas o maior peixe de escama de água doce do mundo: ele é fonte de renda, dignidade e futuro para muitas famílias que vivem do manejo sustentável. Agora, esse trabalho ganha reforço com a chegada do programa Cidade Empreendedora, executado pelo Sebrae Amazonas em parceria com a Prefeitura de Fonte Boa, que vai apoiar tanto os manejadores e manejadoras quanto os empreendedores da zona urbana e rural. O lançamento oficial da iniciativa aconteceu na última quinta-feira (28), no auditório da prefeitura.

Com uma população de 25.871 habitantes, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE 2022), Fonte Boa integra a mesorregião do Alto Solimões no Sudoeste Amazonense. O município registrou em 2021 um PIB per capita de R$ 13.576,30 e se destaca pela força da pesca manejada, agricultura familiar e do empreendedorismo.

De acordo com o DataSebrae, são cerca de 3,2 mil pequenos negócios ativos e 2.616 produtores rurais com Declaração de Aptidão ao Pronaf (DAP), que é o documento que comprova a condição de agricultor familiar da reforma agrária, possibilitando o acesso às políticas públicas voltadas para o trabalhador rural.

Sustentabilidade na produção agrícola

Entre os empreendedores que apostam no futuro de Fonte Boa está Arlen da Costa Afonso, de 49 anos, produtor rural, dono do Sítio Paraíso, que hoje emprega 14 pessoas em atividades ligadas à agricultura e à avicultura.

“Percebi que muitos produtos básicos, como ovos e hortaliças, chegavam de Manaus, e isso sempre foi um desafio para nós. Foi quando decidi investir aqui mesmo no município, com cultivo hidropônico, fertilização e também a produção de galinhas de postura”, conta.

O início não foi fácil: logística, energia, mão de obra e acesso às áreas de cultivo foram obstáculos constantes. Mas, com dedicação, a produção cresceu e se consolidou.

Sítio de Arlen trabalha de forma sustentável em atividades ligadas à agricultura e à avicultura. Foto: Hudson Barros/SEBRAE-AM

Segundo o produtor, a expectativa com a chegada do Cidade Empreendedora é otimizar processos e garantir maior qualificação para quem trabalha no sítio.

“Esperamos que, com o apoio do Sebrae e da Prefeitura, consigamos melhorar nossa capacidade produtiva, oferecer um produto de mais qualidade à população de Fonte Boa e, principalmente, preparar as pessoas que estão com a gente para desenvolver um trabalho mais eficiente”, afirma.

Sustentabilidade também é parte central da rotina: o sítio utiliza energia solar, sistema de fossa de bananeira para preservar o lençol freático, além de priorizar limpeza e reaproveitamento de resíduos.

Manejo do pirarucu 

O manejo do pirarucu é a principal atividade econômica de Fonte Boa e transformou a realidade de dezenas de comunidades. O município foi o primeiro, após Mamirauá, a adotar a prática em 2003 e hoje conta com cerca de 140 comunidades envolvidas, 2.000 famílias que trabalham em 500 lagos e diferentes áreas de rios como Solimões, Panauã, Auatí-Paraná, Mineruá, Mineruazinho, Arabidi e Pirum. A cota anual, autorizada pelo Ibama, chega a 35 mil exemplares anualmente, resultado de uma recuperação significativa dos estoques da espécie, que antes estavam ameaçados de extinção. A atividade movimenta a economia local em aproximadamente R$ 10.710.000,00 com o pirarucu e mais R$ 10.000.000,00 com outras espécies como: Tambaqui e Pirapitinga, peixes liso (surubim, dourada, caparari, pirarara, piraíba, piramutaba e etc…) e peixes miúdos (pacu, jaraqui, curimatá, sardinha, matrinxã etc. por ano.

Esse protagonismo ganhou ainda mais reconhecimento em 2021, quando o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) homologou a Indicação Geográfica (IG) do Pirarucu de Mamirauá, que contempla nove municípios da região, incluindo Fonte Boa. O selo garante valor agregado ao produto e reconhece o saber-fazer tradicional dos ribeirinhos, aliado às características únicas do ambiente amazônico. Desde 2014, o Sebrae atua em parceria com a Federação dos Manejadores, Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (IDSM), Instituto de Desenvolvimento Sustentável Fonte Boa (IDSFB) e outras instituições na construção desse processo, fortalecendo acordos de pesca, capacitações e a organização da cadeia produtiva.

Além de garantir renda, o manejo possibilitou investimentos em moradia, transporte e educação para as famílias, além de abrir espaço para maior participação feminina. Hoje, as mulheres já representam quase metade dos envolvidos, atuando desde a gestão das associações até a captura e beneficiamento do peixe.

O Sebrae-AM é parceiro histórico desse trabalho, promovendo capacitações em contagem, captura, beneficiamento e comercialização do pirarucu. Para José Maria Batista Damasceno, Engenheiro de Pesca e Diretor Presidente do IDSFB, o Cidade Empreendedora vai ampliar esse impacto.

“Com a chegada do programa, esperamos melhorar ainda mais as condições do manejo e fortalecer a atuação das pessoas que dependem dessa atividade, que é fundamental para o nosso município”, afirma.

No Lago Grande, distante 40 minutos via fluvial do município, as comunidades de Nova Esperança e Costa da Ilha trabalham juntas no manejo do pirarucu, organizadas por meio da Associação do Setor Solimões de Baixo. Segundo o presidente da associação, Ataíde Gonçalves, de 67 anos, o grupo reúne 31 famílias e já chegou a registrar capturas de até 660 peixes dentro da cota autorizada.

“A gente se sente feliz porque está fazendo tudo organizado, como pedem as autoridades e os parceiros. Antes quase não tinha peixe, mas agora nossos filhos e netos vão poder ver o resultado desse trabalho. O manejo só trouxe melhoria”, afirma.

Manejadores e Manejadoras de Pirarucu das comunidades Nova Esperança e Costa da Ilha. Foto: Hudson Barros/SEBRAE-AM

Para o manejador, a chegada do programa, é mais um reforço para esse caminho de avanços.

“Nossa expectativa é que o programa traga benefícios para a comunidade, que melhore o que já estamos fazendo e abra mais oportunidades. Toda ajuda que chega para somar é bem-vinda”, completou.

Cidade Empreendedora em Fonte Boa

O programa Cidade Empreendedora, executado pelo Sebrae em parceria com a Prefeitura de Fonte Boa, tem como objetivo estimular o empreendedorismo local e fortalecer a economia do município, apoiando tanto os pequenos negócios urbanos quanto a produção rural. Segundo o prefeito Lázaro Almeida, a iniciativa representa uma oportunidade estratégica para gerar emprego e renda, além de fomentar o desenvolvimento social.

“Uma comunidade que não empreende fica limitada ao acesso às vagas de emprego. Com o Cidade Empreendedora, esperamos fomentar a economia, gerar empregos e melhorar a qualidade de vida do povo”, afirma.

O programa também está alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, incluindo o ODS 8, que visa promover crescimento econômico sustentado e emprego pleno; o ODS 1, relacionado à erradicação da pobreza; e o ODS 10, que busca reduzir as desigualdades. Ao apoiar o fortalecimento da cadeia do pirarucu, a agricultura familiar e os pequenos negócios, o Cidade Empreendedora contribui diretamente para um desenvolvimento local inclusivo, sustentável e de longo prazo.

O chefe do Escritório do Sebrae em Tefé, Manoel Oliveira, destaca a expectativa com o programa. Serão 17 meses de atuação, com 30 ações previstas, visando impactar mais de 700 pessoas.

“Esperamos que o Cidade Empreendedora atue diretamente no fortalecimento dos pequenos negócios e da economia local. Faremos capacitações tanto para os empreendedores quanto para o secretariado do município, garantindo que o conhecimento seja aplicado de forma prática e eficiente em todas as áreas envolvidas”, afirma.

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